Italo Calvino, em seu memorável Por que ler os clássicos, afirma que clássico é aquele livro que nunca terminamos de ler. Não porque seja muito difícil ou chato demais para chegar ao final, mas sim porque mal terminamos de lê-lo e sentimos vontade de lê-lo de novo, ou porque temos a firme convicção de que naquele livro se encontra uma fonte inesgotável para compreensão do mundo, do ser humano e de nós mesmos, e que, portanto, precisamos tê-lo sempre por perto para relê-lo. Por força do ofício — coordenador de grupos de Laboratório de Leitura —, vejo-me obrigado a reler muitos clássicos dezenas de vezes, num intervalo relativamente curto de tempo. Isso, para mim, não representa nenhuma carga, pelo contrário. Como dizia Jorge Luis Borges, só há um prazer maior do que a leitura de um grande livro: a sua releitura. Além disso, essa prática sistemática da releitura tem me permitido não apenas penetrar cada vez mais fundo nos sentidos mais escondidos e amplos das grandes obras, como também tem propiciado uma interessante chave de leitura dos tempos em que vivemos – interessante e, infelizmente, em alguns casos, cada vez mais assustadora.
Dentre os gêneros literários que costumo explorar, aquele que o faço com mais insistência desde que iniciei a dinâmica do Laboratório de Leitura, em 2003, é o da literatura distópica. Livros como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, publicado nos anos 20 do século passado, ou Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, aparecido na década de 1950, caracterizados por projetarem um mundo onde o controle e a uniformização do humano se dá numa realidade na qual os livros e, especialmente, os grandes clássicos são proibidos, queimados ou simplesmente abolidos, sempre suscitaram um sentimento de desconforto nos leitores contemporâneos. Ao longo desses mais de 20 anos discutindo tais livros, foi sempre muito comum ouvir frases do tipo: “É assustador! Parece uma descrição do que estamos vivendo hoje!” Sim, sempre foi assustador, cada vez mais assustador à medida que o tempo foi passando. Entretanto, quando depois da palavra “assustador” a palavra “parece” pode já ser substituída pelo verbo “ser” conjugado no presente do indicativo, o adjetivo ganha uma carga muito mais forte e dramática.
Toda essa digressão inicial vem a propósito de uma notícia que inicialmente me pareceu fake news, mas que depois de muito bem verificada não deu margem a dúvidas quanto à sua autenticidade. De acordo com diversas e confiáveis fontes, a chefe do Departamento de Filosofia da Universidade do Texas A&M — uma das mais prestigiosas do sudoeste dos EUA —, Kristi Sweet, comunicou ao seu colega, Prof°. Martin Peterson, que uma das obras que seriam lidas e discutidas em sua disciplina de Introdução à Filosofia deveria ser “retirada” do programa, ou, pelo menos, “censurada” em “alguns trechos”. A obra? Nada mais nada menos que O Banquete, de Platão, um dos seus mais importantes e famosos diálogos, escrito no século V a.C. A causa? “Promover ideologia racial ou de gênero, ou tópicos relacionados à orientação sexual ou identidade de gênero”. Ora, não fosse a profusão de bizarrices a que assistimos diariamente nos últimos tempos, este seria um argumento perfeitamente adequado para uma ficção ao estilo Huxley ou Bradbury. Entretanto, estamos aqui, mais uma vez, diante de um caso em que a realidade ultrapassa a mais fantasiosa ficção.
Cabe destacar que, coincidentemente, estava eu relendo O Banquetequando tal notícia chegou. E, mais do que das vezes anteriores — como costuma ocorrer quando relemos os clássicos —, estava me deliciando com a genialidade do fundador da filosofia ocidental. Que sofisticação na construção do argumento central; que estilo mais refinado, carregado de sutileza e fina ironia, que se concilia perfeitamente com o poético, o lírico, o sublime; enfim, uma verdadeira homenagem à inteligência humana e um convite incomparável ao exercício da reflexão, habilidades e virtudes tão necessárias nestes tempos de platitudes, superficialidades e estupidificações. E então, no momento em que me comprazia com a feliz escolha para os meus grupos de LabLei, chega a bombástica notícia.
O argumento central de O Banquete, como insinua o próprio título, é o de um festim, regado a comes e bebes, para comemorar o sucesso estrondoso entre o povo de Atenas de uma das tragédias de Agáton, dramaturgo contemporâneo de Platão que, na narrativa, é o anfitrião daquele que seria um dos simpósios mais importantes da história universal. A trama de O Banquete e do que se discutiu na ocasião é narrada por um narrador que não esteve presente, mas que ouviu o que ali se passou a partir da versão de um comensal. Desde o início, portanto, nós, leitores, somos informados que tudo o que ali foi dito passa pelo crivo de vários pontos de vista, mostrando como Platão era consciente de que toda objetividade depende das inevitáveis subjetividades — algo que por si só já demarca a perenidade e a sofisticação desta obra. Seguindo em frente, ficamos sabendo que, cansados de comer e beber em demasia — já era o segundo dia em que aquele seleto grupo da intelligentsia ateniense, composta por poetas, médicos, políticos e filósofos, se reunia —, um dos presentes propõe que cada um dos comensais pronunciasse uma homenagem ao mais importante e, contraditoriamente, desconhecido dos deuses: Eros, o Amor. Partindo então de seus específicos repertórios, cada personagem vai apresentando sua versão sobre a origem, qualidades e importância desse deus que “move a tudo aquilo que é nobre e virtuoso no humano e no cosmos”.
De forma extraordinariamente sutil e inteligente, Platão vai construindo sua teoria do amor a partir de argumentos parciais e paulatinamente ascensionais, que culmina na poética exposição de Sócrates, o protagonista de todos os diálogos platônicos. Este, por sua vez, defende a tese (transmitida, segundo ele, por uma sacerdotisa da cidade de Mantineia, chamada Diotima) de que Eros não seria um deus, mas um ser híbrido, fruto da união de uma humana e um deus. Apesar de insinuar a possível vitória de Sócrates em relação aos demais oradores, Platão cria, entretanto, uma obra aberta, na qual, ao final, cada leitor pode escolher a versão que melhor lhe apetece, desenvolvendo um método de reflexão pelo qual a estratégia de convencimento não se estabelece pela destruição ou apagamento da diversidade, mas a partir do respeito e do amor à complexidade. Uma verdadeira obra-prima; algo absolutamente pertinente e necessário para os tempos que correm. Uma verdadeira aula sobre o que é pensar com respeito, responsabilidade e profundidade. É esta, pois, a obra que se está censurando numa das maiores universidades do país que até bem pouco tempo era visto como modelo de liberdade e democracia para todo o mundo contemporâneo.
Segundo a nota de advertência expedida pela autoridade universitária ao incauto professor de filosofia, esta magnífica obra, exemplo até agora inconteste do bom método filosófico, padece de um vício moral inaceitável — algo que séculos de leituras insuspeitas como a dos teólogos e moralistas medievais e modernos não foram capazes de identificar: ela está contaminada, pelo menos em parte, pelo viés da “ideologia de gênero”, conceito que, registre-se, nunca esteve nem perto de existir no mundo platônico, seja no domínio das ideias ou da realidade histórica. E o mais curioso — e triste — é que os trechos a que se referem os censores, relativos ao discurso de um dos comensais — Aristófenes, o único comediante do grupo —, no qual se expõe a famosa (e mal compreendida) teoria das “almas gêmeas” (que, supostamente, justificaria a homossexualidade e não binaridade de gênero) é apresentada, como aliás todas as outra, em termos de tese, de resto criticada mais a frente por Sócrates. Ou seja, o que Platão faz neste diálogo (como era seu costume) é, mais do que apresentar uma versão definitiva e dogmática da verdade, problematizar diversos postulados, convidando o leitor a pensar e não simplesmente aceitar uma verdade única e indiscutível.
Sem entrar no mérito da validade das teorias da diversidade (pejorativamente chamadas de “ideologia de gênero”) é importante lembrar que qualquer teoria ou ideia científica e filosófica existente merece ser conhecida, divulgada e debatida no universo acadêmico e refutada, se for o caso, apenas pela força das ideias contrárias e nunca por decretos governamentais. O que se apresenta grave e assustador aqui é a forma como assistimos ao solapamento do livre pensar e a imposição da ditadura da estupidez. E, como sabemos, tal procedimento não é privilégio apenas das chamadas forças reacionárias que agora avançam de forma truculenta no berço do pensamento liberal, mas também das contrárias forças progressistas que há algum tempo vêm clamando pelo cancelamento de autores como Shakespeare (acusado de machista), J.R. Tolkien (racista) e, mais próximo de nós, Monteiro Lobato (pelos mesmos motivos de Tolkien).
Ora, não é cancelando ou censurando os clássicos que “protegemos” a nós e às novas gerações das “ideias erradas” que eventualmente possam existir nessas obras. O único meio eficaz e inteligente de “testar” a qualidade das ideias e concepções de mundo é debatendo-as, enfrentando-as com critério e juízo crítico. E, concomitantemente, esse mesmo juízo crítico, tão necessário para o desenvolvimento saudável da cidadania e da cultura, só pode existir e se fortalecer a partir de leitura, da releitura, do debate e da respeitosa discussão de ideias. Essa é uma fórmula que herdamos da Idade Média e que se denominava lectio et disputatio — leitura e debate —, mas que as trevas dos tempos atuais parece haver solapado e relegado ao esquecimento.
Se as autoridades acadêmicas da Universidade do Texas A&M acreditam que estão combatendo “estupidezes” como a “ideologia de gênero” censurando ou proibindo Platão — ironicamente um dos cânones da Civilização Ocidental —, na verdade o que estão fazendo é justamente promovendo cada vez mais a própria estupidez. E a estupidez, como já dizia um outro autor clássico que tenho até medo de mencionar, é uma besta que uma vez bem alimentada cresce, torna-se forte e acaba por devorar aquele que o alimentou.
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